quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Moça do vestido florido...

Ilustração: Dudadase
Tu vens até mim vestida de flores. Dentro de margaridas, lírios e jasmins num vestido rodado que me cega. E teu perfume de flor invade meus segredos mais íntimos, conhecendo-me como nem eu mesmo fui capaz. Tuas raízes já estão fincadas em meus pensamentos e a dor ao toque dos teus espinhos é doce para mim. De manhã cedinho eu te rego com todo o meu amor e fico sentado na beira da cama vendo você desabrochar. De tardinha sou teu beija-flor apaixonado e te beijo em cada pétala. E quando a noite vem sou tua terra fértil, vem nascer em mim, floresce em mim bela flor.

(Karla Thayse Mendes - 12/02/09)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Conselho de botão...

Ilustração: Amélie
Mariana era uma menina mimada e egoísta que não tinha amigos. Quando sentiu falta de conversar com alguém ela aprendeu a falar com os botões da sua blusa rosa. O problema é que ela nunca ouvia o que os botões tinham a dizer. Era individualista o bastante a ponto de falar por horas a fio sem deixar os pobres botõezinhos pronunciarem uma sílaba sequer. Certo dia os pequeninos redondos cansaram de ser tratados como objetos e decidiram fugir de suas casas. A blusa rosa ficou toda desabotoada e Mariana não tinha mais com quem conversar. Assim passaram-se anos... A menina esqueceu-se do som das letras, não sabia mais como soltar palavras. Portanto, escute seus botões, valorize o que eles têm a dizer, ninguém conhece você melhor do que eles, afinal eles estão o tempo todo perto do seu coração, sentindo tudo o que se passa.

(Karla Thayse Mendes - 10/02/09)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Conjugação verbal...

Ilustração: Audrey Kawasaki
Eu te amo,
Tu não amas a mim,
Ele ama a ela,
Nós não amamos juntos,
Vós amais outras,
Eles amam aquelas.
E enquanto meu amor puder caminhar no canteiro de rosas vermelhas, enquanto o último suspiro de esperança ainda abraçar meus pensamentos, eu sigo te amando. Te amo de olhos fechados ou abertos, te amo quando durmo ou quando levanto, te amo de azul, de rosa, de todas as cores do mundo. E mesmo que não queiras conjugar comigo o verbo amar eu o faço sozinha. Minha gramática é paciente... E se um dia meu verbo tocar em teu coração, ainda estarei aqui te esperando. Conjugaremos juntinhos quando o Sol sorrir, e quando a Lua cantar estaremos lá verbalizando o som do amor maior.
Eu te amarei
Tu me amarás
Nós amaremo-nos... pra sempre.

(Karla Thayse Mendes - 11/02/09)

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Retrato ao meio...

Ilustração: Kurt Halsey
Hoje de manhã ao abrir a gaveta do criado-mudo vi aquela caixinha vermelha de recordações guardada. Perguntei ao meu coração se deveria abri-la, mas antes que ele me respondesse minhas mãos apressadas desfizeram o laço dourado que a envolvia. E naquele momento fui abraçada por uma coragem que ainda não sei de onde surgiu...abri. Por entre cartas e postais com juras de amor eterno vi um retrato ao meio. Eu e você em lados opostos, incompletos. É assim que eu me sinto desde o dia em que você saiu por aquela porta, sinto-me ao meio, rasgada em solidão. E entre lágrimas deitei-me naquela caixinha vermelha e deixei-me envolver pelo laçarote dourado. Agora aqui estou, escondida no fundo da gaveta do criado-mudo, onde o mundo não pode me achar. Estou no escuro, entre duas metades de um retrato que um dia foram um só.

(Karla Thayse Mendes - 13/02/09)

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Uma certa Flor amarela...

Ilustração: Dudadase
Quando eu achei que meu jardim já estava todo florido, nasceu uma Florzinha amarela debaixo do pé de jambo pra me ensinar em lá maior uma cantiga bonita de amizade. E já na primeira primavera eu pude notar que ela não era apenas mais uma no meio de tantas outras Flores...era especial. Meu dia ficou mais iluminado quando ela soltou um sorriso de Flor desses bem largos que clareou tudinho, então foi-se embora o medo da escuridão. Todos os dias de manhã cedinho eu encho meu regador de carinho e rego pra cultivar, quero por muitas e muitas outras primaveras olhar pela janela que dá para o jardim e ver aquela Florzinha ali no cantinho, sorrindo e cantarolando aquela canção, fazendo meu jardim mais bonito e muito mais feliz.

(Karla Thayse Mendes - 12/02/09 - Para uma amiga-Flor)

Por dentro do espelho...

Ilustração: Irisz Agocs
Certo dia o espelho do banheiro público de uma cidade cansou de ser tratado como objeto de reflexo alheio. Cansou de refletir todo tipo de tristeza, todo tipo de falsidade, todo tipo de rancor. Ninguém enxergava-o como realmente era, cheio de brilho, com tantos mistérios, cores e formas. Ninguém conseguia olhar dentro do espelho e ver outra imagem que não fosse a sua própria. Essas reflexões fizeram do espelho um vidro quadrado de infelicidade. De tanta tristeza ele fechou os olhos e passou a olhar para dentro de sua alma, conhecendo o seu real valor. A partir desse dia, as pessoas daquela cidade não conseguiram mais ver seus reflexos no grande espelho e então passaram a enxergar umas as outras.


(Karla Thayse Mendes - 12/02/09)

Colcha de retalhos...

Ilustração: Irisz Agocs
O inverno aproximou-se e dona Cecília então começou a costurar uma colcha de retalhos. Cortou pedacinhos de panos quadrados e com agulha e linha dourada foi unindo um a um. Aqueles remendos foram crescendo de mãos dadas. O pedaço de pano listrado trouxe um pouco de colorido para a vida do pedaço de pano branco com bolinhas pretas. O quadrado estampado de flores alegrou o pedaço de pano marrom. Unidos eles perceberam que poderiam ser grandes. Antes eram só uns pedaços de panos antigos, agora unidos, agarradinhos em uma colcha quentinha. E quando o céu começou a chorar floquinhos de neve, dona Cecília deixou-se enrolar naquele abraço macio de coberta. O frio não veio visitá-la naquele inverno.

(Karla Thayse Mendes - 12/02/09)

Dos amores impossíveis...

Ilustração: Verônica Navarro
Naquele dia quente de Dezembro os olhos azuis dela encontraram de longe os olhos avermelhados dele, aqueles olhos lhe tiravam o sono e conseguiam penetrar em cada gota do seu corpo, aqueles olhos quentes aqueciam sua alma molhada e faziam despertar de dentro uma chama de amor bonito. E quando ele a avistou de longe saltaram umas faíscas de beijos tórridos, seus braços quentes se abriam em chamas longas como quem quis ser abraçado. Assim nasceu a história de amor entre a Água e o Fogo. Triste amor distante... Poucas dores se comparam à dor do coração que sofre por um amor impossível. Suas vidas foram esvaindo aos poucos por saber que não poderiam tocar-se. Mais justo seria morrer de amor do que viver um amor proibido, então decidiram se amar ainda que arriscassem as vidas. E quando a Lua veio iluminar a noite, ela deslizou sedenta, Água menina cheia de amor, tanto amor... Ele brilhava de longe incendiando de paixão. Ele a abraçou e ela lhe deu um beijo encharcado de carinho. Aquele pequeno momento foi o mais grandioso de suas vidas. O Fogo foi se apagando aos poucos, virou cinzas... morreu. Viver tinha valido à pena. Ouviu-se ao longe o canto triste de uma cigarra inconformada, e a lua brilhou mais devagar. Água menina chorou lágrimas de dor até formar um oceano profundo, mergulhou até o fundo afogou-se na sua tristeza. O amor tem dessas surrealidades: ama-se para viver e morre-se de amor. Amemos...

(Karla Thayse Mendes - 12/02/09)

Umas tranças...

Ilustração: Dudadase
E naquela tarde florida de primavera meus olhos renderam-se a duas tranças douradas que saltitavam pelo jardim. Aquela menina trançou-me em seus cabelos e amarrou-me com dois laços de fita rosa nas pontas. O cheiro daqueles fiozinhos loiros afagou os meus sentidos de tal forma que eu só via, respirava, sentia e tocava aquelas tranças. E todos os dais eu me perco nas curvas daqueles cabelos clarinhos como o sol da manhã mais bonita.

(Karla Thayse Mendes - 12/02/09)

Aviãozinho de papel...

Ilustração: Irisz Agocs
Quando Davi aprendeu a fazer um aviãozinho de papel decidiu sair voando por aí. Tirou a coragem mais sorridente que tinha no bolso e decolou, subiu até o céu azul sem fim. Num vôo pleno, passeou por entre as nuvens e viu que elas eram mesmo feitas de algodão. Acompanhou um grupo de gaivotas que por ele passou e encantou-se com aquele exemplo de amizade. De lá de cima a terra era tão pequenina quanto sua bola de gude azul. Davi sentiu-se grande por dentro e por fora, na mente e no coração. E quando o sol começou a bocejar ele foi descendo até pousar devagarzinho no quintal da sua casa, com cuidado para não machucar as flores do canteiro. E antes de dormir ele guardou o aviãozinho debaixo da cama, caso quisesse voar outras vezes.

(Karla Thayse Mendes - 10/02/09)

De uma Ladeira raquítica a uma Escada bombada...

No princípio era apenas uma Ladeirinha magra. Aos poucos foi crescendo e trabalhando a musculatura até que ficou toda dividida, cheia de degraus. Pois é, nem as ladeiras escaparam do modismo ditado pela busca obsessiva do corpo perfeito. E agora as academias estão cheias de ladeiras desesperadas querendo ser escadas perfeitas, para isso, levantam quilos e mais quilos de peso incansavelmente.

(Karla Thayse Mendes - 11/02/09)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Circo com pipocas...

Ilustração: Irisz Agocs
Respeitável público, o Circo Real apresenta o espetáculo grandioso da vida! Na verdade a vida é um grande picadeiro de cores com pipocas e balões de soprar. De máscaras coloridas, saias de filó, purpurinas e confetes, saímos de trás das cortinas e entramos em cena. O menino descalço faz malabarismo todos os dias no sinal pra alimentar os quatro irmãos pequenos que estão em casa. Concentração... As bolinhas não podem cair! Que rufem os tambores! Lá vem a moça equilibrista tentando atravessar o fio estreito da desigualdade, ela conseguirá? Vejamos... A nossa próxima atração é o grande mágico João Pacífico e o número especial de hoje é... isso mesmo, ele vai tirar a paz de dentro da sua cartola mágica! É meus caros, ela deve estar escondida lá ha muito tempo mesmo porque nunca mais a vimos. Ora, ora, ora! Continuemos... No número do arremesso de facas Antônio Pessimista tenta cercar sua assistente Maria Esperança. Ufa! Por pouco ele não a acertou. No nosso grande globo da morte estão a incrível Arara-azul e o grande Mico-leão-dourado, será que eles irão resistir? E a última e não menos grandiosa atração de hoje é o Palhaço Zé Cosquinha, ele vem de cara pintada e cheio de graça pra lembrar que a gente ainda sabe sorrir. Porque não existe vida sem alegria e não existe circo sem palhaço.

(Karla Thayse Mendes - 12/02/09)


O sonho de Joselito...

Joselito era um burro do interior que sonhava em ser cavalo de corrida. Essa idéia morava em sua cabeça desde o dia em que passara pelo Beco da Luz e vira na televisão da venda de seu Pedro um espetáculo de corrida com cavalos numerados. Aquilo enchera seus olhos de euforia. Cansara daquela vida de burro carregador e todo aquele peso resultara em dores freqüentes na coluna. Todos os dias o mesmo trajeto: levava os galões de leite da fazenda até a cidadezinha, uns 40 km de caminhada penosa. Sonhava em correr, correr contra o vento, até algum lugar. Um certo dia decidiu: desatou o nó da corda que o prendia à amendoeira, tirou aquele fardo das costas e correu... correu leve pela estrada sem destino. O horizonte era pleno, sem fim. Nas costas agora carregava somente a esperança. E voou pelo chão como aquele cavalo de corrida que um dia vira na TV, correu ao encontro do seu destino. Quiséramos nós tirar das costas tudo o que pesa e correr para a liberdade, o problema é que muitas vezes não temos coragem de desatar os nós que nos prendem ao pé de amendoeira, então passamos a vida toda imaginando como teria sido, e a vida passa... continuamos amarrados, cheios de nós.

(Karla Thayse Mendes - 11/02/09)

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Tristeza de Flor...

Ilustração: Irisz Agocs
Uma Flor nunca deveria entristecer. Ninguém nunca ensinou a as Flores como lidar com as amarguras da vida. Normal, visto que muitos de nós também não sabemos administrar alguns sentimentos. Ora! Não acho certo um ser de tamanha delicadeza carregar nas pétalas fardos tão pesados de infelicidade. Toda vez que uma Flor chora, lágrimas inundam campos e cidades, o grito de uma Flor faz o chão tremer de medo. Quando as flores murcham, o vento sopra bem forte derrubando muros e frutos. E o homem, em sua tola intelectualidade cria aparelhos tecnológicos e explicações banais para justificar enchentes, terremotos e vendavais, quando tudo isso nada mais é do que uma pequena Flor infeliz em algum jardim do Planeta. Então façamos as Flores felizes, sorriso de Flor é um dia estiado, alegria de Flor é arco-íris nascendo.

(Karla Thayse Mendes - 10/02/09)

A briga das Escovas de dentes...

Ilustração: Irisz Agocs
Um casal percebe que acabou o amor e o convívio a dois fica impossível quando suas Escovas de dentes não conseguem mais viver no mesmo armário. Afinal, tem que amar muito mesmo para dividir um espaço tão pequeno o tempo todo. Quando o Senhor e a Senhora Escovas começam a insultar-se e o toque das cerdas de um incomoda o outro, quando os olhares de um não encontram mais o carinho do outro, é chegada a hora do ponto final. Então, se você não consegue escutar o que seu Coração tem a dizer, escute ao menos a sua Escova de dentes.

(Karla Thayse Mendes - 10/02/09)

Matemática...

Eu contesto a plena convicção da matemática. Nenhuma verdade é absoluta e nenhuma ciência é 100% exata. Me ensinaram por osmose que 1 + 1 = 2. Acredito que 1 + 1 só podem ser 2 se ambos estiverem dispostos a somar, se não, 1 continua sendo um e o outro 1 vai pela mesma linha. Seguem por equações diferentes. Podem passar por divisões, multiplicações, somas importantes e até por subtrações dolorosas. Essa é a matemática na qual eu acredito.

(Karla Thayse Mendes - 10/02/09)

Macaquices...


Quando o macaco Maneco apaixonou-se por Laura, a macaquinha da árvore da frente, decidiu enfrentar toda a bicharada da floresta para viver esse romance. Todos diziam: " cada macaco no seu galho". Mas Maneco não deu ouvidos aos comentários, arrumou sua trouxinha e foi viver com Laura num galho só.

(Karla Thayse Mendes - 23/02/09)

Receita de Mundo assado...

Ilustração: Manon Séarlait
" Para assar um bolo, pré aqueça o forno a 180º e deixe-o lá por cerca de 45 minutos ". Esses dias eu tentei fazer um bolo de laranja seguindo a receita de um livro da minha vó, e ... bem, teria dado certo se eu não tivesse me distraído com a leitura e deixado o bolo queimar. Resultado: O mau cheiro tomou a casa e ninguém provou uma fatia sequer do meu bolo de laranja queimado. Há muito tempo atrás, um grande chefe planejou a receita perfeita com os ingredientes mais saborosos que haviam na sua cozinha azul-celestial gigantesca. Preparou a massa com as próprias mãos e então, estava pronto o bolo de Mundo. Coube a nós a simples missão de colocar o bolo para assar seguindo um grande livro de receitas com todas as instruções. Ainda assim, todos os dias nós esquecemos o bolo no forno a 295º e deixamos passar do ponto. Queimamos nossa fé, nossa paz, nosso amor ao próximo. O odor de quiemado alastra tudo e a receita perfeita desanda. Se seguíssemos fielmente as receitas do grande livro não deixaríamos o bolo queimar todos os dias e teríamos um bolo redondo perfeito recheado de felicidade. Então ninguém mais sentiria fome.

(Karla Thayse Mendes - 10/02/09)